Bate-papo com o guitarrista Nuno Mindelis
Nascido na cidade de Cabinda, Angola, em 1957, Nuno Mindelis mora no
Brasil desde 1976, ao longo de sua carreira já lançou oito álbuns de estúdio,
dois deles com a Double Trouble (banda que acompanhou o saudoso Stevie Ray
Vaughn), participou de importantes festivais internacionais de jazz e blues, foi
escolhido como “Melhor Guitarrista de Blues” na competição do aniversário de
trinta anos da revista americana Guitar Player, conheceu grandes lendas das
seis cordas etc. Enfim, é um músico de currículo rico e muita história pra
contar.
Durante o bate-papo, ele nos contou um pouco sobre sua carreira,
influências musicais, parceria com a Double Trouble, setup de shows, dentre outros assuntos.
Registramos aqui nossos sinceros agradecimentos ao Nuno Mindelis, que
cedeu um pouco de seu apertado tempo para conversar conosco.
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Nuno Mindelis (Foto de Divulgação) |
Guitarras Made In BraSil
(GMB): Algumas pessoas dizem que o blues é um estilo em extinção. O que você,
como um artista que vive do blues, acha a respeito desse papo de que o blues
está morrendo?
Nuno Mindelis (NM): Bom, não diria morrendo nem em extinção. Diria que
pode estar passando do cenário POP (em que reinou por aproximadamente 40 anos)
para a galeria das obras preciosas, como os quadros de Picasso ou Modigliani.
Pode ser consultado, copiado, consumido por quem quiser a qualquer hora, não
estará morto, mas sim eternizado e disponível em santuários. Quero ver se os
gêneros novos conseguirão essa proeza, eles é que terão que provar ainda que
não morrerão. O blues e outros estilos já têm o seu lugar na história, na posteridade.
(GMB) Quais são suas maiores
influências musicais?
(NM): Meus heróis primários sempre foram os negros americanos do blues e
o folk, country, soul, a chamada "Americana", mais toda a história do rock . Ouço de Otis
Redding (desde os meus 09 anos) e Booker T. & the M.G.’s a todo o rock inglês
e americano, a Chess Records, o Woodstock, o jazz, a invenção do Fusion, Dylan, tudo o que você possa imaginar. Até
1976 ouvi literalmente toda a música que rolava no planeta. Depois fui exilado
(guerra) e houve uma pausa forçada nessa área.
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Nuno Mindelis e Double Trouble (Foto de Divulgação) |
(GMB) Você gravou dois discos (Texas Bound e Blues
on the Outside) com a cozinha do Stevie Ray Vaughan - a Double Trouble (Chris
Layton e Tommy Shannon). Quais são suas lembranças desses
trabalhos?
(NM): Acho que foi um certo divisor de águas. De
repente eu estava fazendo shows em casas e importantes festivais na França,
Holanda, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo, Canadá, EUA etc. Lembro-me de bandas
veteranas abrindo shows meus (Ford Blues Band) e de entrar em casas noturnas e ouvir
bandas tocando músicas desses discos, de ser anunciado ao lado dos nomes mais
importantes do blues e fora dele (BB King, Jimmy Vaughan, Keb Mo, Prince, Diana
Krall, George Benson etc.).
(GMB) Você coleciona
guitarras? Tem alguma preferida?
(NM): Gosto de Gibsons e Fenders desde menino. Minha preferida é a
Gibson 335 (ou 345) Red – “A Ferrari”.
(GMB) Atualmente qual é o seu
“setup” para shows?
(NM): Uso uma 335 Washburn, uma Music Maker (handmade, brasileira) um Fender Twin Reverb Blackface 65 Reissue
(bem antigo) ou um Roland Blues Artist 212, conforme os locais tenham um ou
outro. De pedais uso somente um Wah (mini Cry Baby), e dependendo do estado do
amplificador que encontro, um drive Tube
Screamer (não o lendário verdinho, é outro cujo modelo nunca lembro, prata) ou
um Boss BD2W.
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Tele Thinline MM |
(GMB) Recentemente vi você
usando uma Telecaster Thinline feita pelo Ivan Freitas, luthier da Music Maker.
Quais são as vantagens uma guitarra "custom
shop" apresenta? Você poderia nos contar um pouco sobre essa guitarra?
(NM) A vantagem básica é ter alguém (de reconhecida capacidade) fazendo
exatamente o que você quer e às vezes por um preço menor, considerando o
absurdo que é pagar 70% de imposto ou mais por instrumentos musicais importados.
Se a madeira e os componentes são bons e o luthier é um artesão responsável e
profissional acho possível conseguir um instrumento personalizado, daqueles que
os seus netos vão colocar numa galeria depois, como um objeto precioso de
família. No meu caso especificamente, o Ivan fez uma Telecaster com circuito de
Les Paul e, como gosto de 335’s (e ele não produz esse modelo por questões
ligadas a “timming” de produção),
decidi fazê-la totalmente hollow. O
resultado da construção é um primor. É uma “Tele Violin” levíssima, flamed maple, altamente bem construída,
linda. Faz um tempo que a deixei na Music Maker para trocar os captadores (por
dois humbucker NM fabricados pela Music Maker) e estou com muita saudade. Há
mais de dois meses não consigo ir lá para buscá-la.
(GMB) Como está a campanha
"crowdfunding" (financiamento coletivo) para a produção e lançamento
do seu próximo disco? Você poderia nos contar um pouco a respeito desse novo
projeto?
(NM) Decidi fazer o projeto porque não há mais ninguém, nem empresa ou
selo musical que queira investir em música no formato tradicional. Quem põe
dinheiro na produção de um disco vai vender o que para se ressarcir, se discos
nem existem mais? Antes era quase simples, eu já estava em nível de conseguir
esses investimentos, falava com gravadoras e propunha acordos de distribuição,
todo o mundo ganhava (fiz isso com a Universal, Trama, Eldorado, entre outras).
Quando não com gravadora, falava com empresas privadas mesmo, eles entravam com
a verba e depois podiam receber das vendas dos discos e ainda colocar o
logotipo deles no produto e destinar uma cota para clientes especiais, essas
coisas. Hoje ninguém tira um centavo do bolso para isso, até onde sei. Mas se
você tem fãs que acreditam no seu trabalho, surge essa possibilidade de
financiamento coletivo. Artistas sempre precisaram de mecenas, ao longo de toda
a história do mundo. Na Idade Média, a Igreja e/ou a realeza financiavam (Michelangelo e muitos outros). Já no século 20 as
gravadoras não eram exatamente mecenas (pelo contrário), mas a coisa andava com
a grana das vendas, artistas recebiam 1% ou 2% só, mas de milhões, acabava
sendo suficiente para os “mainstream”. Agora acho que estamos na fase da galera, do
financiamento coletivo. Você vale quanto pesa, se tiver gente que gosta do seu
trabalho e quer apostar nele, consegue
desenvolver projetos. A minha meta está um pouco alta para padrões de “Brasil
em crise”, mas como a ideia é um revival
de blues tradicional, uma volta a Austin (onde gravei com a Double Trouble) e uma
comemoração ou um reencontro com amigos das turnês que fiz, mesmo espremendo ao
máximo, acaba ficando um pouco mais alto por causa do dólar. Se não bater a
meta reformulo o projeto (só captação lá e finalização aqui, por exemplo).
Nuno Mindelis no programa "Ensaio" da TV Cultura
CONTATOS NUNO
MINDELIS
Quer
contribuir com o novo disco do Nuno Mindelis? Informações sobre a campanha “crowdfunding”:
Instagram:
https://www.instagram.com/nmindelis/
Canal
do YouTube: https://www.youtube.com/user/nmindelis/featured
O Nuno é sempre mágico e um dos grandes do blues nacional. Grande Nono, aquele abraço.
ResponderExcluirO meio de subsistência do músico são as apresentações, o velho cachê. Sem os discos pra vender, ele tem que se auto promover, é difícil.
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